“DESCULPEM” – por Jorge Guilherme

Radio Tendencias

Não quero, nem espero identificar-me com Le Fontaine. Mas existem situações que terei muitas das vezes recorrer ao reino animal, para descrever e comparar, situações e reacções nas quais o ser racional comete, e comparar a mesma reacção com o ser irracional perante a mesma situação ou ação.

Mais uma vez irei recorrer a uma história, na qual o canídeo e o ser humano racional, são os protagonistas. Uma história, que não sendo baseada em fatos reais, tem tudo de realidade em muitas das circunstâncias do nosso dia a dia. Mais saliento que os nomes e locais aqui referidos, são pura ficção.

João, jovem de 22 anos, filho único, habitava com os seus pais, Sr. Joaquim e a D. Madalena (espero que não haja um desagrado no tratamento de género, ao tratar a um por Sr. e a outra por D.), tinha como hobby passear o velho Bobby, cão já nos seus 13 anos, (na enumeração aniversariante do ser humano, que em nada se compara à realidade canina), extraído dum canil Municipal, pelo Sr. Joaquim, num intuito de guardar os perus e galinhas, do ataque de uma raposa matreira, que por lá algumas vezes ia pedir namoro aos galináceos. Com o decorrer dos anos, o vigor, a resistência e agressividade do Bobby, foram diminutas, e a sua mobilidade era cada vez mais reduzida, ora assim, os passeios esses que eram duradouros, tanto para quem passeava o Bobby, como também para o mesmo, simplesmente para percorrer um percurso de 500 m.

Mas o João adorava esse momento de passeio, andava com uma garota debaixo de olho, dos quais os pais do João não eram muito apologistas (dizia-se que a D. Madalena tinha como sonho o filho vestir o hábito de padre), e era nessas alturas que João encontrava o melhor momento, para arrancar do seu telemóvel, e ingressar em mera cavaqueira com a dita moça. Se era para lhe cantar a canção do bandido, se era para engatar um encontro, se era para algo mais sério… ninguém sabia. Bem… ninguém sabia, não é bem assim! Sabia o Bobby, na qual aquele passeio de 500 metros, era um martírio e custava-lhe tanto às artroses. E a situação ainda piorava para o pobre cão, quando o João prolongava ora o discurso, ora a distância do percurso. E o pobre do Bobby, que tristemente sentia a sua sina, e os últimos momentos da sua vida, como um alibi para uma sinuosa e furtiva relação. Bem, uma coisa era certa, a sua utilidade teve sempre como suporte o amor, ora na situação da raposa com os galináceos, nos tempos de maior vigor, ora agora, na relação foragida de um mariola com uma gaiata com a mesma lógica e retórica.

Mas o Bobby, tinha outras necessidades vitais para a sua sobrevivência diária. Necessitava de alimentação, assim como de um local para matar a sede, sem nunca esquecer de uma boa higienização do local onde habitava, pois com uma idade avançada a bexiga já não é a mesma, e conter-se é uma guerra da qual a bexiga ganha sempre. Mas nisso contávamos com a D. Madalena, senhora de muitos atributos e encargos, trabalhadora incansável, com uma edução primorosa, sendo sua conduta principal, nunca o seu filhinho sujar as mãos, com tais atos responsáveis. Para isso estava sempre ela pronta, era ele o Joãozinho, o menino dos seus olhos. Educação essa, aliada a uma outra vinda do Sr. Joaquim, que homem que se preze nunca será incutido a faina de limpeza da casa e outros afins, para isso o casamento serve, e deverá ser sempre incumbido à esposa tal atributo.

E surge a triste noticia…… Bobby morreu. Para o João, a tristeza surge numa altura má, os passeios de engate, foram enfim terminados, e a investigação para uma nova desculpa, no intuito de prossecução daquela palração com as garotas. Para o Sr. Joaquim nem aquece, nem arrefece, e como se chamava mesmo o cão? Para D. Madalena aquele óbito marcou a sua personalidade, com um traço bastante demarcado e durante longo tempo de tristeza. Afinal descobre-se que o Bobby era também um confidente silencioso da D. Madalena. Nos poucos momentos que ela passava com o Bobby, confessava e desabafava todos os problemas, raivas, confidencias e afins temperamentais com o seu velho Bobby.

Passado alguns anos, visitei aquela família, que agora já era mais numerosa. O João, agora com 30 anos, vivia com uma jovem, nos seus 28 anos, a Isabel. Do fruto dessa relação nasceu um rapagão o Pedro, miúdo forte e vigoroso de 5 anos. Sr. Joaquim, trabalhava na sua horta, onde a idade já pesava, todavia aquela força mental de masculinidade nunca o levava a reter qualquer recusa ou pedido de auxílio. Por sua vez, D. Madalena arrastava-se na sua lida de casa, agora que o agregado familiar era maior, o pedrinho só sabia dizer vovó, pois a mama e o papá, esses dividiam os seus dias em passeios de moto e assistirem a series televisivas.

Bobby, estejas onde estiveres, deverás agora ter a noção do poder da tua existência. Os momentos que serviste de alibi, o período que passaste a ouvir lamurias, raivas e confidencias, as horas de vigia que passaste, no intuito daquela raposa não casar com nenhuma galinha ou peru.

Mas uma coisa não terás culpa, na inexistência da base do ser humano, a educação do Joãozinho, na pouca e débil vontade de lutar e impor os seus direitos da D. Madalena e no retrograda pensamento e idêntica educação do filho, pelo Sr. Joaquim.

DESCULPEM,

MAS O FUTURO DO UNIVERSO,NÃO ESTÁ PRINCIPALMENTE NA PROTEÇÃO DO AMBIENTE, NAS CAUSAS ANIMAIS, NA ALTERAÇÃO DA NOSSA ALIMENTAÇÃO, ETC, ETC….MAS NA BASE PRINCIPAL DA EDUCAÇÃO DE CADA UM.

Gostaste desta noticia?

Classificação média 5 / 5. Classificações até ao momento: 1

No votes so far! Be the first to rate this post.

Next Post

Jovem atropelado ao tentar escapar de bullies

Um rapaz foi atropelado no Seixal, perto da escola Dr. Augusto Louro, enquanto tentava fugir das agressões perpetradas por um grupo de outros colegas. O episódio, que ficou gravado em vídeo, está a circular nas redes sociais desde o início desta semana, mas a “ocorrência aconteceu na semana passada”, informa […]
Translate »